domingo, 15 de fevereiro de 2009



Às margens do Tâmega
Meu livro de memórias – Volume I

Capítulo I

Os Carvalhos

Eu tinha sete anos quando meus pais se separaram. Ainda não sabia, mas aquilo seria o fim do mundo, pelo menos do meu mundo.

Estávamos na metade de 1962 e eu vivia na linda cidade onde tinha nascido, Chaves, um antigo burgo fundado por romanos durante a ocupação da Península Ibérica ainda no século I. Construída pelo imperador Tito Flávio Vespasiano no início da era cristã, a pequena cidade estende-se por um rico vale encravado ao norte de Portugal, entre a serra do Brunheiro e as montanhas galegas, já no lado espanhol de nossa bizarra dualidade. Digo bizarra porque só somos espanhóis quando nos convém. Na maior parte do tempo, como bons transmontanos, abusamos do direito de espezinhar os nossos vizinhos, como se fossem um estorvo, um implante ali colocado para nos atrapalhar. Minha avó costumava dizer que “da Espanha nem bons ventos nem bons casamentos” numa clara demonstração do carinho que nutríamos por nuestros hermanos do outro lado da fronteira, que ficava a apenas oito quilômetros da minha casa.

Mas enfim, implicâncias à parte, a verdade é que, mais das vezes, transmontanos e galegos entendiam-se bem, principalmente depois que as feridas resultantes das ditaduras irmãs, de Franco e Salazar, puderam ser curadas ou relevadas.

Chaves era uma cidade luminosa, que cresceu às margens do rio Tâmega, que sempre foi a alma e o charme do pacato vilarejo com pouco mais de dez mil habitantes. A existência de uma nascente de águas quentes, que brotam da terra a incríveis 74 graus centígrados, foi a razão primeira para a formação do núcleo urbano, ao qual os romanos deram o nome de Águas de Flávio, numa homenagem ao seu fundador, que em latim se grafava Aquae Flaviae. Está explicada a razão de chamarem-se Flavienses os felizardos ali nascidos, como eu!

Foi nessa singular cidade, com nome pomposo e uma história povoada de batalhas e heróis que eu nasci em setembro de 1955. Meu pai, embora nascido no Rio de Janeiro, pertencia a uma família local, respeitada e tradicional, daquelas típicas famílias da classe média de então, quase sempre com mais educação do que dinheiro. Meus avós paternos, ambos filhos de abastados lavradores, mais por capricho do que por necessidade, resolveram tentar a vida no Brasil e vieram para o Rio de Janeiro. Achavam, talvez, que a vida por cá seria mais branda do que nos confins de Trás-Os-Montes, onde o clima e a personalidade forte das gentes, não são boa companhia para temperamentos delicados ou mentes mais sofisticadas. O dinheiro, sempre o fascinante e vil dinheiro, rareava mais pela avareza típica dos patriarcas da família, do que propriamente pela sua escassez. A viagem para o Brasil revelou-se um erro que duraria apenas dois ou três anos, mas, para não perderem a viagem, ou contagiados pela lassidão e sensualidade dos trópicos, entre um samba de breque e um fado castiço, meus avós acabaram por conceber aquele que seria meu pai trinta e três anos depois. Nascia no bairro da Lapa, hoje baluarte da boemia carioca, Waldemar Pereira de Carvalho, que com apenas dois anos, em 1923, seria levado para Portugal por seus desiludidos pais.

De regresso a Chaves, costumavam dizer aos amigos que no Brasil fazia muito calor, não sendo o clima muito saudável para criar um filho. Na verdade, meus avós não tinham o perfil típico dos emigrantes portugueses. Meu avô, que pelos padrões de então já tinha estudado o bastante ao completar o segundo grau, gostava das boas coisas da vida. Vinha de uma família abastada, e, aparentemente, não agüentou muito tempo as agruras de ser emigrante, de ter que trabalhar de sol a sol para economizar algo que valesse a pena. Não, esse não era o seu sonho, não era sua vocação, tinha apenas satisfeito mais um capricho de menino bem criado. Fim da odisséia brasileira. Início do calvário português!

Enfim, de volta à terrinha, levaram o brasileirinho que tinha pouco mais de dois anos. Meses depois, aprovado em concurso, meu avô acabou entrando para o serviço público, trabalhando como oficial de justiça no tribunal de Chaves, onde bateria ponto por mais de quatro décadas. O brasileirinho, esse é um caso à parte e merece um pouco mais de atenção.

Pouco afeito ao trabalho, talvez conseqüência da exposição ao calor da terra natal, teve todas as oportunidades e não aproveitou nenhuma. Empenhado numa briga de egos com o pai, sabe-se lá por que, fazia questão de optar por tudo quanto fosse profissão que desagradasse o sisudo Sr. Carvalho do tribunal. Era uma luta de gigantes, nunca consegui descobrir qual deles era mais teimoso, mas também, não sou a pessoa mais indicada para fazer essa avaliação, já que eu, por efeito genético ou ironia do destino, também não sou lá muito flexível e tenho certa tendência para a mais pura teimosia. Para aliviar minha consciência costumo repetir o que sempre ouvi: que a teimosia é uma das características mais conhecidas dos transmontanos. Ora bem hajam, é sempre bom ter uma desculpa para nossos defeitos. Isso não os diminui, mas nos dá a resposta que precisamos na hora do aperto e consegue amenizar as inconveniências das crises de consciência!

Meu pai sempre teve uma paixão incontrolável pelo que ele chamava, carinhosamente, de “ a roda”. Referia-se ao volante. Era fanático por carros, caminhões, tratores, enfim, tudo que tivesse rodas e motor. O problema é que a paixão que ele tinha pelo volante só não era maior do que a que tinha pelo que ele chamava “liberdade”. Hoje sei que isso queria dizer que não gostava de trabalho duro. Não o culpo, há tantas coisas melhores para se gostar, por que razão alguém iria gostar de trabalhar duro? Pois é, só que isso significava não gostar de horários, de patrões, enfim, não gostar de um emprego regular. Talvez isso fosse bom, se indicasse propensão para o empreendedorismo, termo hoje tão apreciado, mas que na época nem o dicionário reconhecia, provavelmente! Infelizmente também não era isso. Em todos os negócios que se meteu só perdeu dinheiro. Era infalível, se algo começava a dar dinheiro, lá ia meu pai atrás de uma oportunidade. Mal se metia no negócio, pronto, era prejuízo atrás de prejuízo. Que homem azarado, nunca conseguiu ganhar dinheiro onde os outros o faziam. Muitos anos depois cheguei à conclusão que na verdade, faltava-lhe tino comercial, resumindo: era honesto demais, não sabia mentir, respeitava os amigos, cumpria a palavra, e, não adianta negar, adorava acordar tarde. Pois é, devia ser mesmo a maldita herança carioca, o certo é que nunca conseguiu levar adiante nenhum dos vários negócios em que se meteu. Foi assim com os táxis, foi assim com a empresa de comercialização de batatas, foi assim com tudo que resolveu fazer. A única coisa que sempre fez muito bem e com grande sucesso, foi dirigir os carros dos bombeiros voluntários e o ônibus do time de futebol. Ah, é claro que ambas as funções eram exercidas de graça, sem qualquer remuneração. Achava talvez que fazendo assim, não cobrando, podia mostrar-se superior e exercer a sua excentricidade à vontade. Ninguém mandava nele, orgulhava-se, fazia apenas o que queria e o que gostava. Poderia ao menos ter sido feliz agindo assim, mas desconfio que nem isso conseguiu! Como felicidade também pressupõe esforço, entrega, planejamento e muitas concessões ao bom senso, também isso se revelou tarefa impossível de cumprir, e tenho certeza de que meu pai, embora se esforçasse para disfarçar, nunca soube realmente o que era ser feliz! Começo a desconfiar que isso pode ser hereditário, tal qual muitas outras mazelas que herdei de minha família, pode ser que a incapacidade de ser feliz também tenha vindo incluída no pacote. Valha-me Deus!

Os fatos relevantes, no entanto, é que devem ser ressaltados, e é preciso entender algumas circunstâncias na trajetória do meu pai, para que seja possível compreender o ambiente e as variáveis em que alguns fatos de minha vida aconteceram.

A relação de meu pai com o meu avô, como já devem ter intuído, nunca foi muito saudável. Havia ali uma alternância de amor e ódio que teceu uma convivência sempre conflituosa que acabou por determinar muitos dos fatos desagradáveis que viriam. Desentendimentos são normais em qualquer família, principalmente nas famílias latinas, compostas de gente de sangue quente, nervos à flor da pele e língua afiada. Se até os anglo-saxões, com toda a tradição de fleuma e sangue azul, são capazes de espetaculares cenas de baixaria, como se pôde ver pelo rumoroso caso do príncipe Charles e sua belíssima Diana, o que dizer de reles mortais gerados em famílias machistas e conservadoras, onde as aparências, mais das vezes, contam mais que o conteúdo! Pois bem, as brigas constantes entre meu avô e meu pai, ao fim de alguns anos, acabaram por deteriorar tanto os vínculos familiares que o resultado só podia ser a ruptura.

Zeloso dos princípios de família vigentes naquela época, meu avô não via com bons olhos a tendência do filho por empregos, digamos, pouco à altura das pretensões da família. De gerente de garagem a auxiliar de escritório de advocacia (gabava-se de ser o datilógrafo mais rápido da cidade, como se isso fosse um feito a comemorar para o filho de uma respeitável família de abastados antepassados), meu pai acabou por parar atrás do volante de um caminhão numa transportadora de adubos. Não era um caminhão qualquer, como fazia questão de explicar aos mais céticos. Era uma Berliet de 40 toneladas, um veículo moderno, de procedência francesa, com o qual ele galgava as estradas esburacadas e sinuosas da região como se pilotasse a última maravilha da tecnologia aeroespacial. Enfim, cada louco com a sua mania, mas era até agradável ouvi-lo contar as peripécias das muitas viagens para o Porto, cidade a 180 km de intermináveis e perigosas curvas, ou dos pitorescos povoados onde ia distribuir os sacos de adubo para os pequenos agricultores transmontanos. O sisudo Sr. Carvalho, meu avô, embora não visse essa profissão do filho com bons olhos, lá ia fazendo de conta que não se importava, e, no íntimo, torcia para que nenhuma idéia mais mirabolante saísse da cabecinha intempestiva do filho. Tudo em Vão.

Lá pelo final de 1952 meu pai, sempre correndo atrás de um bom rabo de saia, conheceu Lídia, uma bela jovem com pouco mais de 17 anos completados. Foi fulminante, paixão à primeira vista, dessas que até dói só de olhar! Na época já rapaz maduro, com mais de 30 anos, meu pai sucumbiu aos encantos da morena, que, diga-se, também era da pá virada, e, em pouco tempo, não sem pensar em dar mais uma estocada no pai, acabou por casar-se com aquela que viria a ser a minha mãe. Na época ela tinha apenas 18 anos e ele já estava com 32, ou seja, para os padrões da sociedade provinciana local, era um casamento pouco convencional, e o que era ainda menos plausível, minha futura mãe não estava grávida! É claro que havia nesse relacionamento um componente potencialmente mais perigoso do que uma gravidez indesejada, que se tivesse acontecido, até tornaria, aos olhos do meu avô, a união mais justificável. O problema, mais uma vez, era puro preconceito e provincianismo, o problema para o senhor Carvalho era que a minha mãe descendia de uma família de padeiros, sem nenhuma tradição, títulos ou credenciais que não fossem o trabalho honesto e uma ou outra pequena propriedade!

Em meados da década de cinqüenta, depois de deixar um emprego de motorista de caminhão, que já tinha deixado uma trinca na rígida carapaça moral do velho Sr. Carvalho, meu pai decidiu, não sei se por seu corrosivo senso de humor, se por vocação, comprar um táxi e passar a trabalhar na praça. Obviamente ele não era um taxista comum, nada disso. Enquanto os outros se esforçavam para chegar cedo e prospectar clientes, meu pai estacionava o carro no ponto apenas após o almoço, e escolhia os clientes que queria transportar. No conceito dele, e nisso ele pode ter puxado um pouco à família, só transportava quem era merecedor (segundo sua própria avaliação, claro) de pisar no tapete impecavelmente limpo do Mercedes Benz novinho em folha! Isso significava que ele se especializou em transportar as melhores famílias da cidade, médicos, juízes, comerciantes, e alguns poucos abastados lavradores, amigos e desde que com as botinas livres do barro transmontano. Sua excentricidade fez história na praça de táxis de Chaves. Os (poucos) amigos verdadeiros que conseguiu, admiravam-lhe o caráter reto, mas divertiam-se com as esquisitices pouco compatíveis com a profissão que escolhera. Era realmente uma figura! Tinha lá suas manias e parece que experimentava um perverso prazer em cultivá-las e exercê-las sempre que a ocasião surgia. Como o senso de oportunidade parecia não ser o seu forte, por vezes tornava-se inconveniente e apenas despertava nos amigos uma mal disfarçada tolerância. Mas era divertido provocá-lo apenas para ouvir suas respostas pouco ortodoxas. Era dono de uma lógica indestrutível, de uma língua afiada e de um humor mordaz que faziam a alegria, e às vezes a raiva, de quem o provocava.

Uma coisa meu pai sempre prezou: a elegância. Quer de modos, quer na forma de vestir e de falar. Afinal, descendia de uma família de educação esmerada, tinha o segundo grau, considerado suficientemente bom para os padrões da época, e fazia questão de ser cortês com todos os que o cercavam, em suma, era um verdadeiro gentleman. Certa vez, numa tarde cinzenta e fria de inverno, com a temperatura namorando os zero graus, lá estava ele a desfilar a sua irretocável elegância pela calçada em frente à praça de táxis, no largo do arrabalde. Vestia um terno de lã, finos sapatos de couro (sola de borracha e botas são coisas de labrego, dizia com convicção), camisa social e gravata. Por baixo, e apesar do frio intenso, apenas uma camiseta flanelada de manga comprida, mais para evitar o contato direto da camisa com o corpo, do que para espantar o frio. Era assim que sempre se vestia. Fui encontrá-lo passeando na calçada, de um lado para o outro, batendo os pés no chão na tentativa de aquecê-los um pouco, esfregando as mãos uma na outra e, a intervalos regulares, assoprando o bafo quente no interior das mãos em forma de concha. Era o retrato da elegância desconfortável. Não havia como negar que estava com frio. Um de seus melhores amigos também taxista, Américo Rambóia, embrulhado num pesado sobretudo de lã, com um pulôver de gola alta, luvas e cachecol, e mesmo assim tiritando de frio, perguntou à queima roupa:


-- Ó Waldemar, não estás com frio?
-- Estou sim. E tu? – disparou meu pai em tom ríspido.
-- Claro que estou, está um frio de rachar!
-- Pois é, bem sei que sim. Então de que adianta andares vestido como se fosses um espantalho? Trazes mais de cinco quilos de roupa, nenhuma delas de bom gosto, e ainda assim estás com frio!?! Já que não há remédio, se é para passar frio, pelos menos eu ando elegante e não perco a classe, ora!

Este era meu pai, capaz de desarmar qualquer um com respostas desconcertantes e de lógica difícil de rebater. Mas ele levava isso muito a sério. Vestir-se era um ritual. Jamais usava malha de lã, chapéu, gorro, luvas, cachecol, galochas ou qualquer calçado que não fosse de couro legítimo (inclusive no solado). O terno bem cortado, onipresente, só aceitava a companhia de um leve pulôver de cashemire, daqueles com decote em “v”, de forma que permitisse visualizar a indefectível gravata.

A comida era outro ritual digno de apreciar. A refeição mais ligeira consumia, no mínimo, uma hora e meia. Era meticuloso e difícil de agradar. Era capaz de dirigir horas seguidas só para comer um prato especial num restaurante de que gostasse. Entrava, puxava conversa com todo mundo, fazia amizade, ia entrando pela cozinha, mexia com as cozinheiras e garçonetes, enfim, era uma figura alegre e sempre bem vinda em qualquer lugar. Mas era difícil de agradar e tinha lá suas manias para comer. Gostava muito de batatas fritas, mas, tinham que ser acabadas de fritar e colocadas no prato uma a uma, cortadas em dois pedaços, enfim, mais um ritual que consumia esticados minutos e impacientava um pouco quem não entendia a essência da arte de apreciar um bom prato, como ele costumava dizer.

Mas do que ele gostava mesmo era de dirigir um veículo, qualquer que fosse. Um dia viajou por vinte e três horas seguidas parando apenas para as necessidades básicas. Viajar com ele era uma experiência deveras interessante. Não parava de contar histórias dos lugares por onde passava. Dono de uma memória privilegiada (ironicamente, hoje, aos 88 anos, tem a memória muito prejudicada por um AVC e mal consegue lembrar o que falou cinco minutos antes), ele descrevia lugares, situações, pessoas e episódios pitorescos de cada aldeiazinha do caminho. Mas até para viajar era preciso cumprir algumas regras, respeitar algumas manias. Nada de comer no carro

Isto aqui não é restaurante. Se quiseres comer, paramos e comemos no lugar certo, aqui não. – sentenciava sem deixar margem para argumentos. Por vezes alguém reclamava

– Mas Waldemar, é só uma bolachinha, que mal há em comer uns biscoitinhos?

A resposta estava na ponta da língua:

-- No carro não, automóvel foi feito para viajar e não para comer. Uns biscoitinhos aqui, umas bolachinhas acolá, daqui a pouco enche-se isto aqui de formigas e é um trabalho do caraças para acabar com elas. Não senhor. Se quiseres eu paro lá mais à frente, mas comer no carro não.

Pronto, veredicto proferido seguia-se a viagem e não se tocava mais no assunto. Aliás, ele não gostava muito de parar. No início da viagem dizia:

-- Façam as necessidades, comam, estiquem as pernas, que o carro já está com o depósito cheio de gasolina e agora só paro no destino final. Quem não gostar, pode ir de autocarro (ônibus) que eu não me importo.

Figuraça esse meu pai! Como é que eu poderia ser diferente depois de um aprendizado destes? Pois é, mas nem tudo era folclore ou excentricidade. Havia coisas muito sérias acontecendo. Meu avô, já pouco contente com o rumo que o filho estava seguindo, nem imaginava que logo depois levaria o golpe de misericórdia em seu orgulho burguês. Como contei há pouco, em meados de 1953 meu pai resolveu casar-se com a namoradinha, Lídia, a tal filha de um humilde padeiro da cidade, o Manuel Abreu, mais conhecido pelo apelido de “gaio”. Foi a gota d’água. Meu avô, cujas relações com o filho já estavam estremecidas pela lambança que o rapaz fazia com caminhões, táxis e demais “volantes”, não agüentou o ultraje de ver o filho, almofadinha, casar-se com uma moça sem eira nem beira. Numa atitude típica do temperamento tinhoso dos “Carvalho”, cortou relações com o filho e entregou-o à própria sorte. Coitada da minha avó Arminda, uma santa mulher, que foi apanhada no fogo cruzado. De um lado a personalidade forte do marido e o sentido de obediência que era lei naquele tempo, do outro lado o infinito amor maternal pela sua cria desencaminhada. Situação difícil numa cidade interiorana, onde todos se conheciam pelo nome de família e onde certas regras eram, por assim dizer, indispensáveis. Foi um Deus nos acuda, a família ficou dividida, a turma dos panos quentes entrou em ação, mas, nada feito. Meu avô, do alto do seu inflexível orgulho, não engoliu a afronta e não quis mais saber do filho taxista.

Meu pai, cuja teimosia só não era maior que seu orgulho, não mexeu uma palha para melhorar a situação. Encarou. Casou-se e foi viver com a esposa numa casa que alugou de um colega dos táxis. Ficava na parte histórica da cidade, se é que alguma coisa naquela cidade não era histórica, mas enfim! Era na rua do anjo, uma viela estreita, cheia de casarões antigos com avarandados altos e paredes coloridas, que fazia a ligação do largo do anjo com o jardim do bacalhau. Minha avó materna morava na rua de trás, onde mantinha uma bem afreguesada padaria familiar. A vida seguiu em frente, com meu pai trabalhando como taxista sem se importar muito com as tinhosices do meu avô. Acho que fez muito bem, afinal, não fora isso, eu não estaria aqui contando a história!

Mais de um ano depois, em setembro de 1955, eu fazia minha estréia neste mundo trazido pelas mãos hábeis da Sra. Marcelina, habilidosa e dedicada parteira, assistente do Dr. Alcino, que tendo a ela, não precisava incomodar-se com partos de gente pouco importante! Nasci lá mesmo, no segundo andar da casa da rua do anjo. Rua do anjo? Seria um presságio? Acho que não, está mais para contradição ou ironia! Ainda hoje, sempre que por lá passo, não consigo evitar um arrepio de emoção ao lembrar do tempo em que ali vivi. Segundo minha mãe eu era um bebê esperto, agitado, mas também, que mãe não acha seu filho esperto, não é verdade? Mas vamos relevar os exageros de mãe! Na verdade, eu era mesmo agitado, inquieto, chorão e muito muito mimado. Era o primeiro filho de uma paixão arrebatadora, que ignorou os muxoxos de uma influente família para seguir seu curso e gerar seus frutos. Não podia ser diferente. Eu era especial, tinha que ser. Loiro como o miolo dos pães que minha avó assava no enorme forno a lenha da padaria familiar, faces sempre rosadas pela proximidade do fogo, olhos pequenos e inquietos, só sossegava quando minha avó, já cansada da choradeira, me colocava para dormir na masseira onde a massa do pão descansava antes de ir para o abrasador destino no fundo do forno. Era só ajeitar-me ali ao lado da massa, aquecido pelo bafo aconchegante das brasas, que eu pegava no sono e dava algumas horas de paz àquela senhora altiva e nervosa que era minha avó materna.

Minha mãe, ainda muito jovem e sem experiência, ocupava-se em tentar manter o impulsivo marido longe de encrenca. Não era tarefa das mais fáceis. Meu pai sempre gostou de farra, de viagens, de alegria. Ficou muito feliz com o nascimento do primeiro herdeiro, mas isso não era motivo para mudar o seu festivo estilo de vida. Dona Diamantina, minha corajosa avó, há muitos anos divorciada do também padeiro Manuel gaio, além de assar pães e folares que faziam a alegria de parte da cidade, e o desgosto do ex-marido, agora concorrente, ainda ficou com o ônus de ajudar a sustentar a família, já que por causa do estilo pouco ortodoxo que meu pai usava para tocar a improvisada carreira de taxista, a grana era pouca e as despesas muitas. Em janeiro de 1957 nascia minha irmãzinha, Cristina, uma pessoinha miudinha e tímida, que parecia querer pedir licença até para chorar! Pela atitude do meu pai quando do nascimento da filha, estava ausente numa viagem com amigos, já se pode ver que o casamento não era lá sua vocação mais forte.

Minha mãe, com a ajuda imprescindível de minha avó, foi levando como pôde, e depois de alguns anos, mudamos para uma casa na rua da ponte, bem ao lado da casa do meu avô materno, com o qual, aliás, nossas relações eram bem menos quentes do que os pães que saíam de sua padaria para abastecer boa parte das aldeias dos arredores.

Lembro-me bem dessa casa. Um corredor estreito e comprido começava logo depois da porta verde da rua. Uma escada com doze grandes degraus de madeira escura, levavam ao pavimento superior, onde era a moradia propriamente dita. Na frente havia uma varanda com balcão de madeira rendilhada, pintada de verde, que era a nossa área de lazer. Ali se desenrolavam as brincadeiras e as principais atividades do meu dia. Havia uma outra varando de fundos, que dava para os terrenos às margens do rio tâmega, mas que era mais utilizada como área de serviço por ser contígua à grande cozinha. Não me lembro bem quantos cômodos havia na casa, mas sei que era ampla, confortável e, principalmente, muito bem localizada. Ficava de frente para a rua principal da cidade. À direita, a cerca de dez ou quinze metros apenas, abria-se o largo do arrabalde, onde ficava o tribunal e a praça de táxis, coincidentemente, os locais de trabalho do meu avô e do meu pai, respectivamente. Em frente à nossa porta começava a ponte romana, monumento nacional que a todos enchia de orgulho. Nos dias atuais, de tão fotografada, um amigo a apelidou de top model. Construída em pedra com dezoito arcos, naquela época já parte deles encobertos por construções urbanas que, ao longo dos séculos, foram mutilando a obra prima de Trajano, o imperador que dá nome à ponte, era por ali que desfilava toda a cidade. Além de ser a continuação da rua principal, a rua da ponte era também a única ligação com o bairro da Madalena, na outra margem do rio, onde meu avô residia. Isso significa, evidentemente, que o Sr. Carvalho do tribunal era obrigado a passar várias vezes ao dia na porta da nossa casa, criando situações embaraçosas numa cidade como aquela, onde todos exerciam com prazer o esporte mais praticado: falar da vida dos outros. A Madalena era também a principal entrada da cidade, o que significa dizer que todos os que chegavam a Chaves, eram obrigados a passar na frente da minha porta, transformando minhas tardes numa festa contínua. Às quartas então, como era dia de feira, (vinham as pessoas das aldeias fazer as compras na cidade e vender suas mercadorias e seu gado) o movimento era intenso e formava um mosaico divertido que encantava a mim e à minha irmã, que passávamos horas naquela varanda inventando histórias para cada figura que desfilava lá na rua. Vez por outra descíamos para a calçada e lá ficávamos admirando aquela gente, aquela azáfama que nos deslumbrava e que não entendíamos.